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Medicina no SUS une conhecimento, humanidade e cuidado com quem mais precisa

Médico e coordenador do Centro de Estudos Niterói D’Or, Marco Orsini fala ao lado de Marco Antonio Araújo Leite sobre a dimensão humana da medicina pública

Medicina no SUS une conhecimento, humanidade e cuidado com quem mais precisa.

Médico e coordenador do Centro de Estudos Niterói D’Or, Marco Orsini fala ao lado de Marco Antonio Araújo Leite sobre a dimensão humana da medicina pública

O médico Marco Orsini, coordenador do Centro de Estudos Niterói D’Or, e o médico Marco Antonio Araújo Leite compartilham uma visão de medicina que ultrapassa o conhecimento técnico e encontra na escuta, na presença e na humanidade parte essencial do cuidado. Em entrevista exclusiva, os dois profissionais refletem sobre a experiência de atuar no Sistema Único de Saúde (SUS) e sobre a relação construída diariamente com pacientes que enfrentam diferentes formas de vulnerabilidade.

A trajetória de Marco Orsini também está ligada à formação, ao estudo e à disseminação do conhecimento médico por meio do Centro de Estudos Niterói D’Or. Nesse ambiente, a atualização científica e a troca de experiências fazem parte da construção de uma medicina baseada em conhecimento. No atendimento público, porém, o médico encontra outra dimensão igualmente importante: o contato direto com pessoas e histórias que revelam diferentes faces da realidade brasileira.

Para Orsini, atuar no SUS significa colocar o conhecimento adquirido ao longo da carreira a serviço de quem precisa de atendimento, muitas vezes em contextos marcados pela pobreza, pela vulnerabilidade e pela espera. É uma medicina que acontece longe dos holofotes e que, segundo ele, oferece uma experiência profundamente humana.

“O que mais me encanta no SUS, e principalmente onde atendo, em um aconchegante espaço na Região Oceânica de Niterói, é o rodear de pessoas, os olhares, o carinho e a troca sincera que tenho com eles”, afirma.

Essa proximidade com os pacientes é apontada pelo médico como uma das razões pelas quais valoriza especialmente a atuação fora dos grandes espaços de exposição. “Eu, particularmente, amo a medicina fora dos holofotes, pois ali estou em paz e despido de tudo”, relata.

Essa filosofia também atravessa a relação de Orsini com os filhos, João e Bento. O médico conta que procura transmitir a eles uma compreensão de cuidado que começa pela capacidade de enxergar o outro e estar disponível para ouvir.

“Onde tiver uma pessoa menos favorecida, necessitando de nós, adoecida, vocês devem parar absolutamente tudo e, no mínimo, escutar”, afirma, ao explicar uma das mensagens que procura deixar como ensinamento para os filhos.

Marco Antonio Araújo Leite também construiu parte importante de sua trajetória profissional na medicina pública. Para ele, cuidar não deve significar escolher quem pode pagar, mas reconhecer em cada paciente o mesmo direito à vida e à dignidade.

“Trabalho no SUS há anos, mas até hoje não sei quando meus pacientes poderão retornar às novas consultas. Por situações várias, mas definitivamente a mais pesada é a falta de capital”, afirma.

A declaração evidencia uma das dificuldades enfrentadas diariamente por pacientes e profissionais: a necessidade de acompanhamento médico nem sempre encontra condições econômicas capazes de garantir a continuidade do tratamento. Ainda assim, os médicos ressaltam que a experiência no SUS também é marcada por histórias de superação, resiliência e vínculos construídos no cotidiano.

Na convivência com pacientes de diferentes origens e condições sociais, a medicina se transforma também em uma oportunidade de compreender as diferenças. Para a assistente social Cyntia Iennaco, cuidar é uma forma de pertencer à própria humanidade e de reconhecer que a doença, a dor e a necessidade de acolhimento podem atravessar qualquer pessoa.

Ao entrar pelo posto de atendimento em Itaipu, na Região Oceânica de Niterói, Orsini encontra um sentido particular para sua profissão. “Saber que, naquele dia, quando entro pelo posto de Itaipu, Região Oceânica, Niterói, meu conhecimento e presença serviram para alguém que realmente precisava dele” representa, segundo ele, uma das experiências que dão significado ao trabalho.

Nesse cenário, não existe espetáculo médico, mas uma batalha cotidiana contra a doença, a dor, a vulnerabilidade e as limitações que fazem parte da realidade de muitos brasileiros. É justamente nesse espaço que o conhecimento científico encontra o humanismo.

Para Marco Antonio Araújo Leite, a prática médica precisa reunir essas duas dimensões. O profissional deve compreender o naturalismo, buscando entender de onde vêm e como se desenvolvem as doenças, mas é o humanismo que oferece inspiração para a mudança e para a luta contra a miséria e a dor.

“Exercer medicina no SUS é um ato em que vibram seus corações e mentes. Em que o humanismo é capaz de entender a pobreza e a vulnerabilidade da espera”, afirma.

Em sua reflexão, o médico recorre ainda à cultura popular para explicar a capacidade humana de enfrentar a tristeza. “É como diz o samba: ‘cantando eu mando a tristeza embora’. Talvez só tenhamos a capacidade de diminuí-la, ao invés de excluí-la. Mas não deixa de ser um feito de grande valia, sempre a ser tentado”.

No cotidiano do SUS, os médicos também encontram histórias que não terminam necessariamente em grandes resultados ou reconhecimentos públicos. Um abraço, um beijo, um sorriso, uma palavra de conforto ou o gesto de secar uma lágrima podem representar momentos importantes para quem enfrenta uma doença.

“Temos essa oportunidade no Brasil: o SUS. Apesar de sabotado, muitos daqueles que fazem parte desse sistema sabem que medalhas e diplomas comemorativos geralmente não surgem. De quando em vez, há até xingamento. Porém, temos orgulho do abraço, do beijo, de secar uma lágrima, de sorrir junto”, afirma Marco Antonio.

Para os dois médicos, esses pequenos gestos fazem parte de uma dimensão do trabalho que nem sempre aparece em números, diplomas ou homenagens. A possibilidade de contribuir para uma melhora, ainda que pequena ou passageira, ou até mesmo acompanhar a cura de um paciente, representa uma experiência significativa para quem escolheu a medicina.

A reflexão final dos profissionais parte de uma ideia central: a vida humana não possui uma hierarquia de importância. O rico e o pobre adoecem. O forte e o frágil sentem medo. Todos envelhecem e estão sujeitos à perda. Em algum momento, qualquer pessoa pode precisar que alguém estenda a mão.

Por isso, a medicina pública carrega um compromisso com a própria condição humana: cuidar sem perguntar primeiro quanto vale aquele que está diante do profissional. Para Marco Orsini e Marco Antonio Araújo Leite, o SUS representa uma oportunidade concreta de colocar conhecimento, experiência e humanidade a serviço de quem mais precisa.

Os dois defendem que o sistema continue crescendo e superando as dificuldades que atravessam sua trajetória. Entre desafios, encontros e histórias de vida, encontram no atendimento público uma das expressões mais concretas do sentido de exercer a medicina: usar aquilo que aprenderam para cuidar de outra pessoa.