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O pé e o chão: especialistas explicam impactos no cérebro da nova geração

Marco Orsini, Eduarda Iennaco, Rafael Zandonadi Brandão e Acary Souza Bulle Oliveira discutem a importância das experiências corporais para o desenvolvimento neurológico infantil

Marco Orsini, Eduarda Iennaco, Rafael Zandonadi Brandão e Acary Souza Bulle Oliveira

Marco Orsini, Eduarda Iennaco, Rafael Zandonadi Brandão e Acary Souza Bulle Oliveira discutem a importância das experiências corporais para o desenvolvimento neurológico infantil

O contato dos pés com o chão é muito mais do que um fenômeno mecânico. Do ponto de vista das neurociências, a interação entre a superfície plantar e o ambiente constitui uma importante fonte de informação sensorial para o sistema nervoso. Pressão, atrito, textura e distribuição das forças sob os pés são continuamente detectados por receptores cutâneos, musculares, tendíneos e articulares.

Marco Orsini, coordenador do Centro de Estudos do Niterói D’Or, participa da discussão a partir da perspectiva da neurologia e da reabilitação. Médico neurologista, com atuação acadêmica e assistencial, Orsini tem trajetória voltada ao estudo das doenças neurológicas, da funcionalidade e da recuperação do movimento, aproximando a ciência da prática clínica.

Eduarda Iennaco reforça que a discussão também precisa considerar o equilíbrio entre as experiências digitais e as vivências concretas da infância. “A criança precisa ter contato com a tecnologia, mas não pode perder a oportunidade de experimentar o mundo com o próprio corpo. Brincar, correr, tocar diferentes superfícies, subir, descer e descobrir os limites do próprio movimento são experiências que fazem parte do desenvolvimento e não podem ser substituídas integralmente pelas telas”, afirma.

Rafael Zandonadi Brandão destaca a importância de observar o desenvolvimento motor a partir da relação entre corpo e ambiente. A experiência corporal oferece estímulos que participam da construção das respostas motoras e da organização do movimento, reforçando a necessidade de compreender a criança de maneira integrada, e não apenas a partir de habilidades isoladas.

O neurologista Acary Souza Bulle Oliveira também integra essa discussão sobre movimento, sistema nervoso e funcionalidade. Professor titular de Neurologia da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com atuação dedicada à neurologia e às doenças neuromusculares, Acary possui trajetória acadêmica e assistencial na área, contribuindo para a compreensão das relações entre sistema nervoso, músculos e movimento.

Essas informações chegam ao sistema nervoso central e são integradas por diferentes estruturas, entre elas o córtex somatossensorial, o cerebelo, os núcleos vestibulares e as redes motoras. O cérebro utiliza esses sinais para construir uma representação dinâmica do corpo e realizar ajustes rápidos na postura, no equilíbrio, na força muscular e na trajetória dos movimentos.

Para caminhar com segurança, porém, o cérebro não depende de uma única fonte de informação. Ele combina continuamente informações visuais, vestibulares e proprioceptivas. A visão informa sobre o ambiente e sobre a posição do corpo em relação ao espaço. O sistema vestibular, localizado no ouvido interno, participa da percepção do movimento e da orientação da cabeça. Já a propriocepção fornece informações sobre a posição e o movimento das diferentes partes do corpo.

A propriocepção, portanto, não está restrita aos pés. Ela envolve receptores presentes em músculos, tendões e articulações e informações conduzidas por diferentes vias do sistema nervoso. Entre elas estão as colunas posteriores da medula, relacionadas à transmissão da propriocepção consciente, da vibração e do tato discriminativo. Outras vias participam da condução de informações proprioceptivas para estruturas como o cerebelo. É a integração desse conjunto de sinais que permite ao sistema nervoso saber, em cada instante, onde o corpo está e como está se movimentando.

Durante o desenvolvimento, essa experiência sensório-motora ganha importância ainda maior. Andar sobre diferentes superfícies, correr, saltar, subir, descer e adaptar-se às irregularidades do terreno oferecem ao cérebro uma variedade de informações que não são equivalentes entre si. O organismo precisa perceber essas mudanças e produzir respostas adequadas.

É por isso que uma criança que caminha sobre um piso regular enfrenta uma tarefa diferente daquela que anda sobre areia, grama, pedras ou uma superfície inclinada. O corpo precisa ajustar a distribuição da força, a posição das articulações, o tônus muscular e o equilíbrio. São pequenas mudanças, muitas vezes imperceptíveis para nós, mas que exigem processamento contínuo do sistema nervoso.

O conceito de integração sensório-motora ajuda a compreender esse processo. O cérebro não apenas recebe informações do ambiente. Ele utiliza esses dados para antecipar, executar e corrigir movimentos. Cada passo envolve, em certa medida, um ciclo permanente de percepção, processamento e resposta motora. Nesse sentido, o pé pode ser compreendido como uma importante interface sensorial com o ambiente. O contato com o chão não apenas possibilita a caminhada, mas fornece ao sistema nervoso informações sobre a posição do corpo, as características da superfície e as condições necessárias para o próximo movimento.

A experiência corporal, portanto, não é periférica ao desenvolvimento cerebral. O sistema nervoso se organiza e se adapta também a partir das experiências que o corpo vivencia. Quando uma criança caminha, corre, pula ou sente diferentes texturas sob os pés, ela recebe informações que precisam ser interpretadas e transformadas em respostas motoras.

Que tipo de experiência corporal estamos oferecendo ao cérebro da nova geração?

As crianças de hoje crescem cercadas por estímulos digitais. Jogos eletrônicos, celulares, tablets e outros dispositivos fazem parte da rotina e oferecem experiências visuais, auditivas e cognitivas cada vez mais sofisticadas. O problema não está na existência dessas tecnologias, mas na falta de espaço para as experiências corporais.

Uma tela pode simular um terreno irregular, um jogo pode exigir equilíbrio e coordenação e uma realidade virtual pode produzir a sensação de movimento. Mas essas situações não reproduzem integralmente aquilo que acontece quando a criança precisa lidar com uma pedra no caminho, uma mudança inesperada de superfície, um piso molhado, uma subida, uma queda ou a necessidade de correr atrás de outra criança. Na experiência real, o corpo precisa perceber, ajustar-se e responder às condições que encontra. A criança precisa ser criança.

Existe ainda um fenômeno conhecido como reponderação sensorial (sensory reweighting). Quando uma das fontes de informação sensorial se torna menos confiável ou deixa de estar disponível, o sistema nervoso pode modificar o peso relativo atribuído às demais. É parte do que permite, por exemplo, que uma pessoa com deficiência visual utilize de maneira mais intensa as informações vestibulares e proprioceptivas para orientar sua marcha.

Essa capacidade de adaptação mostra que o sistema nervoso não funciona de maneira rígida. Ele compara informações, identifica sua confiabilidade e ajusta continuamente a contribuição de cada sistema para manter o controle do corpo. Para a infância, isso reforça a importância da variedade e, por isso, da necessidade de vivenciar o mundo real para além do mundo virtual. Isso não significa estabelecer uma oposição simplista entre tecnologia e movimento. A tecnologia faz parte do cotidiano e pode oferecer recursos importantes para aprendizagem, comunicação e entretenimento. O que merece atenção é quando as experiências mediadas por telas passam a ocupar o espaço de experiências que dependem do corpo inteiro.

Uma criança precisa conhecer o mundo digital, mas também precisa experimentar o mundo físico e real. Precisa jogar, mas também brincar. Precisa observar, mas precisa correr, saltar, equilibrar-se, tocar, sentir, errar, ajustar e tentar novamente. O cérebro não recebe apenas informações quando a criança se movimenta. Ele precisa organizar essas informações, relacioná-las ao que já conhece e produzir uma resposta adequada para cada situação. É nesse diálogo contínuo entre corpo, ambiente e sistema nervoso que muitas habilidades motoras vão sendo construídas e refinadas.

O pé e o chão estabelecem, assim, uma conversa silenciosa e contínua. A cada contato, o corpo informa ao cérebro onde está, como está se movimentando e quais ajustes podem ser necessários. Compreender essa comunicação é também reconhecer que o desenvolvimento acontece em permanente interação com o movimento, com o corpo e com o ambiente. Para o cérebro da nova geração, colocar os pés no chão não é apenas uma questão de caminhar. É uma forma concreta de experimentar o mundo, criar experiências e viver uma realidade que é muito diferente daquela que o mundo virtual apresenta.